DORES QUE VIRAM POEMA

Eu comecei a me perceber mais e perceber mais minhas relações. Observar comportamentos de maneira menos superficial e a expandir a minha percepção dos motivos pelos quais as coisas acontecem, porque alguém se comporta de determinada forma comigo, e porque eu deixo me tratarem de tal maneira. Nesse processo surgiram muitas questões que ainda vão aparecendo a cada dia. E elas vão ficando mais difíceis na proporção em que eu me conheço mais.

E uma das coisas que aprendi hoje é que não existe nada mais entediante do que gente que acha que já te decifrou. Quem acredita que pode resumir o que me levou 23 anos para descobrir – e que não descobri ainda – baseado em apenas algumas conversas.

É fácil dizer que eu não quero ter relações superficiais. Difícil (e doloroso) é o momento em que eu percebo que aquilo que eu tenho com outra pessoa, não é o que me preenche. Que eu sinto falta de um carinho, de um chamego, de uma conversa fluída. É o momento em que eu observo que a dedicação que tenho investido em mim mesma, eu também gostaria de receber de alguém. Essa dedicação trás algumas autorreflexões complicadas de assumir e assimilar para mim mesma.

Quando direcionei a minha atenção para as minhas relações, percebi o quão desgastante é crer no outro. É um retrato da vida como mulher. E como mulher negra, que sente vontade de intimidade mas nunca foi ensinada que isso seria possível.

É me perguntar se o outro está interessado em mim por eu ser mulher ou por eu ser quem eu sou. É quando eu digo que não adianta de nada o outro estar interessado em mim, mas sequer perguntar quem sou, o que eu quero pra mim. O meu interesse não sobrevive a superficialidade.

Mulheres negras não foram ensinadas a mostrar sofrimento. Não podemos ficar magoadas por muito tempo. Nossa dor é interpretada como raiva. Nossa cor não deixa marcas visíveis, a não ser que a agressão seja muito forte. Nossos sentimentos são quase invisíveis. E quando uma mulher negra demonstra carinho, é interpretado como carência.

As mulheres negras são trabalhadoras, são fortes, são seres inabaláveis, capazes de aguentar qualquer coisa. Esses estereótipos que carregamos são usados para justificar diferentes tipos de violência contra nós. Mulheres negras têm sua saúde mental ignorada, sua feminilidade afastada. Mulheres negras recebem menos anestesias em hospitais do que comparado com mulheres brancas. A mortalidade materna também é 7 vezes maior se comparado com mulheres brancas. A negra é expansiva, cheia de atitude, agressiva, barraqueira, fria, promíscua e portanto, não merecedora de amor, cuidado ou respeito.

Existe uma desumanização da mulher negra. Existe uma imagem da mulher branca ser para casar, ser a delicada, a sensível, educada e pura, inocente, a que o outro vai apresentar aos pais e amigos. E a mulher negra que gosta de sexo, que nunca vai ser tratada como sensível, delicada ou afetuosa, que nunca será apresentada aos pais.

Eu sinto necessidade de dizer que também choramos em casa, sofremos a solidão. Que mulheres negras amam e são merecedoras de relações afetivas. É importante fazer uso de qualquer espaço para recuperar o que foi perdido ao longo da história, é declarar a consciência de que eu sou uma mulher inteligente, afetuosa, e que existem outras formas de elogiar uma mulher negra sem sexualiza-la. É entender que eu quero mais que isso, que eu mereço essa troca e essa dedicação, que eu não construí minha consciência e meu amor próprio para receber migalhas de amor do outro. Eu não quero ouvir que sou bonita, porque isso eu já sei. Não faça perguntas superficiais sem a real intenção de me conhecer. Eu quero ser ouvida, respeitada e amada. Eu quero mais, eu quero a relação que estou disposta a construir. Eu não nasci para ser preterida.

Eu não comecei esse texto querendo falar de racismo. Eu queria falar de amor. Mas assim como o racismo é revolucionário, o amor negro é mais ainda. E é impossível não falar o óbvio.

Anúncios

eu não sei dançar mas eu danço

eu não sei dançar
mas eu danço
no canto da sala
eu beijo
no canto da boca
eu não sei chorar
mas eu choro
na beira da cama
eu rio
às margens do mundo
eu não sei escrever
mas eu escrevo
na pele
eu não sei contar histórias
mas eu conto
na roda de amigos
eu não sei fazer direito
mas eu faço
daquele jeito que você sabe
eu tento
e venho dançando
no meio da sala
eu beijo
no meio da boca
eu choro
no meio da cama
eu rio
no centro do mundo
eu caio
na superfície da pele
eu escrevo
quando eu não tenho histórias
eu invento
na ponta do céu
eu pulo
e eu não sei amar
mas eu amo
e mesmo assim
eu canto
mesmo assim
eu tento
mesmo assim eu danço
eu não sei te amar
mas mesmo assim eu amo

s e l v a g e m

você não cabe no meu mundo
selvagem demais
livre demais
porque eu choro demais
e penso demais
você não mora aqui
a água é salgada demais
a pele é negra, o corpo é quente
aqui dentro faz calor demais
e eu sou selvagem demais
sou instante
inconstante
perdida demais
não tenho tempo de ser contida
impaciente demais
eu quero mais tempo pra ser feliz
e eu quero mais tempo de ser
selvagem em paz.

sobre o que eu deixei para trás

destroços

coisas partidas sem dono

vestígios de algo que um dia existiu

convívio que já fez sentido pra nós

restos dos meus sentimentos, amontoados à beira da imensidão

ruínas que nao suportaram o peso de sentir

uma idealização inconclusa

ou uma decisão sóbria – existe um elo entre abandonar para sobreviver

foto: Lunna Ramos – Corumbau, Bahia – Brasil

mother

dear black woman,

i hear you.

the beats of your heart

coming from the core of earth.

from the time of your birth.

i hear you.

 

dear dark woman,

i feel you.

the pain from your wombs

can be feel across the continent

to all of your homes.

i feel you.

 

dear creative woman,

i stand by you.

and everytime you cry

we all cry at the same time

and we stand by you.

 

dear african child,

i. got. you.

you’re the daughter of our ancestors.

the voice of freedom

that raises against our skin

i got you.

 

dear yemanjá,

i salute you.

the queen of nature.

mother of the oceans.

odoyá.

i salute you.

 

dear magic woman,

i believe you.

i believe in the strength of your soul

the curves of your body

the beauty of your hips.

the power of your blood.

and i believe you.

eu sou todas as mulheres que me inspiram

eu sou todas as mulheres que me inspiram

eu sou todas as mulhers que bravejam

sou todas as que são silenciadas, expropriadas, agoniadas

eu sou todas elas

eu sou todas as mulheres que me ensinaram um pouco sobre como o mundo funciona

eu sou todas as donas

as mandonas, as bonitonas, as choronas

sou todas as mulheres que vieram antes de mim pra eu poder nascer

e tenho um pouco de cada mulher que ainda vou conhecer

sou todas as mulheres que lutam por todas as mulheres que gritam socorro silenciosamente

eu sou a compulsiva, a histérica, fútil, a desobediente

eu tenho um pouco de todas as mulheres da rua

mesmo as invisíveis e sem voz

porque dentro de mim carrego um pouco de todas nós

eu sou todas elas

as que resistem, desistem e sobrevivem

sou um pouquinho de todas as mulheres que ainda não existem

e eu escrevo para todas as mulheres que em mim habitam

que somos todas – mulheres que inspiram