Dois

Dois seres exaustos, se encontram
Desacreditados, se unem
Se foram
Um dia
Ficaram, partiram

Sob a linha nociva do tempo
Um rosto, desfigurado
Um nó
Dois velhos amigos
Com sonhos destintos, e uma viagem só

Duas vidas vazias
Um dia suspensas
Por um desejo em comum
De ficar

Dois passaros surdos
Poetas perdidos
De cantos longuínquos
Costuram em espelhos
O ato de amar.

Tão minha

Sei que embora eu pareça só
Tão só, tão magra, tão fria
Eu não seja assim tão sozinha
Tão só, tão magra, tão fria

Eu sei que sou uma bagunça
Das grandes, daquelas profundas
Que minh’alma se estreita culpada
Tão só, tão magra, tão fria

E que em um recanto qualquer
Tão longe, encontrei um museu
E em uma das obras, seus olhos
Tão claros, tão raros, tão seus

E eu sei que cansei de ser só
Tão só, tão magra, tão fria
Que agora eu quero ser sua
Tão sua, tão crua, tão nua

Ou que embora eu não queira ser só
Tão só, tão magra, tão fria
Eu então seja mesmo sozinha
Não sua, mas minha