Escritores de Areia

Pés de areia, fracos e frágeis
Caminham sob flores e espinhos
Procuram livros e carros
E navios e becos
Sozinhos

Mãos de areia, fracas e frágeis
Tateiam e transpiram
O medo e a ira
Máquinas e morros
E cavalos marinhos
Sozinhos

E feios
E tristes
E pobres

Escritores de papel
Cidades de areia
Mãos de papel
Pés de sereia
Sozinhos

Mapeiam as palavras
De gosto ruim
Se cansam e dormem
E choram ladrilhos
Costuram tecidos
Sozinhos

E surdos
E órfãos
E loucos

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Antes de ir

Antes de ir, fique um pouco mais
eu faço café, tem bolo
Antes de ir, conte mais uma história
Se não tiver, invente
Se não quiser, reconte
Eu não me canso de ouvir.
Antes de ir, me abrace
Vamos ver aquele filme de novo
Eu te faço massagem e até conto piada
Antes de ir, lembre-se que pode chover
E se fizer sol fique mesmo assim,  podemos nadar
Antes de ir leia o horóscopo, ele diz que é melhor ficar
Antes de ir podemos jogar videogame,
Conversa fora,
Ou as roupas no chão.
Antes de ir tome um banho,
me leve contigo, prometa ficar.
Eu posso ler pra você, fazer um poema, cantar
Eu até fico em silêncio, se você decidir ficar
Antes de ir repense, ou melhor, não vá.

Última Avenida

Vagando há tempos, sem tempo
Nenhum carro passou
Não vi placa, nem curva
Nem um guarda com apito
Como fui parar aqui, tão longe?
Sem sinal, sem casinhas
Nem barraco ou chalé
Também não tem bicicleta, vago a pé
Nenhum poste com antena,
ou caminhão de passagem
Como fui parar aqui, tão longe?
Estrada de terra
Silêncio gostoso de ouvir
Sem buzina e som alto
Sem ter que esperar o sinal abrir
Não tenho relógio, ou um mapa
nem TV, nem nascente
Estou na última avenida da mente
Observei o céu expandir
Sem andorinha cantando
Sem avião decolando
Em busca de algum horizonte
Como fui parar aqui, tão longe?