Por que vivo?

“Por que vives?”

Amanheceu, fez-se de repente dia
Iniciou-se um ciclo de novas vidas
Novos pesares, novos amores
Mas as dores,
Elas continuam as mesmas

“Por que vives?”

As ideias mal desenvolvidas
Formam-se diante de mim
Vestígios de alguém que um dia fui
Um rosto do avesso
Uma alma mutilada
Ainda procurando a resposta para tal pergunta

Por que vivo?

Pretendo achá-la perdida em um canto qualquer
No fundo de alguma gaveta
Junto com todas as respostas de que preciso
E já respondo

Enquanto isso,
mudo a cada instante
enquanto observo o dia passar despercebido diante de mim
E aprendo
Ouço a manhã chegar
E o entardecer ceder a noite adentro

Por que vivo?

Perdoe-me, o que queres?
Não tenho respostas
Eu sou de lua
Transcrevo meu caos em palavras minguantes
Pois quando me dedico a escrever, assim o faço
E me empenho

Por isso vivo.

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Noite

O tic-tac do relógio indica o tempo perdido entre um cochilo aqui e outro lá. Os dias seguem se arrastando minuciosamente. Não vou a lugar nenhum. Metade do ano se passou, e ainda estou deitada. Perdida e afundada no colchão. Passei a viver de lembranças, sonhando com viagens que nunca farei e diálogos que nunca direi. Murmurando amores perdidos que só me foram necessários para aprender a ser só.
Observo a lua, ali sozinha na noite nua e iluminada. As vezes tenho a impressão de que ela me acompanha. Mas estou parada. Assisto ao julgamento no qual sou juiz e réu. Mas me encontro em juízo final, pois já é dia.
Vedo meus olhos e viajo ao desconhecido, erroneamente me encontro sempre no mesmo lugar: na cama.

Inverno

Observei a coruja no muro inacabado
E fui observada
Secretamente em silêncio eu gostava
De ser vigiada
E me pergunto se a coruja estava lá o tempo inteiro, e eu não vi
E como tudo e todos nós
Estamos suspensos por motivos que nos foram dados como outorga
Sentimentos que não ousamos sentir
Assim como subitamente a coruja desapareceu
Supostamente me esqueci
Já não lembrava da coruja como no momento em que a vi
Esquentei as pontas dos dedos na xícara de café
Suspeitei,
Não havia coruja
As coisas são o que são quando não queremos ver
E sutilmente somem, ou deixam de ser.