Contramão

Sinto como se cada passo e cada atitude,
e cada gesto contrário, e cada palavra dita por mim,
encontra-se na contramão de um caminho estreito.

E toda angústia em meu peito transborda,
e toda dúvida em meu corpo me cala,
e toda dor, canaliza e corrói,
e todo medo destrói.

E minha mente desgraça a alma,
como se – destinada a falhar,
me diz,
que não há nada que eu faça
eu nunca serei,
e nunca jamais serei,
e de modo algum
em momento nenhum serei
feliz

A Metade de Mim

 

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A minha metade não é minha
É outra metade além da minha
A minha metade é a outra metade de alguém

Uma das duas partes iguais de um todo
Que sou eu
E cada uma das duas partes iguais, em que se divide um todo
Que é meu
Eu desejo ser por inteiro
Totalmente, integralmente
Eu

E ainda que não se viva por inteiro
Mesmo que sua metade seja inteira
É para se completar que se vive

E nada me completa –
Nem mesmo a extensão de mim
Do meu semi ser
Nem a metade vazia
Completamente só
Do alvorecer –
Completará-me um dia
Mais do que eu

Cena II

Cena II

i
estaçao de trem
malas cheias e mentes vazias
mil corações partidos
conectados
idas e vindas singulares
compartilhadas na rede
social-media
fazendo uma média entre
destinos distintos
em meio-dia

ii
o desejo é extemporâneo
e extra terrestre
o maquinista ansiava
a jovem esperava
o rapaz partia
a dor invadia
e uma mensagem de texto dizia
– fica

Cena

encaro em teus olhos
vermelhos, embreagados, desabrigados
um oceano de possibilidades
um amontoado de tristeza
na luz dos teus olhos
profundamente perdidos nos meus
distantes porém tão próximos
meu rosto do teu
observamos uma quietude absurda –
mente na escuridão absoluta
escravizamos os seres
 sufocamos os dizeres
muda

Frasco

Antes de mais nada peço perdão
Pelo tom de desespero presente nos versos seguintes
Pela poesia de gaveta que venho recitar
Pelo peso das palavras que tento igualar
Com o peso nas costas
As custas de histórias reais
Vividas, sofridas, sentidas
E pela recompensa contida nesse frasco
Coberto de terra
Esses pequenos buracos para respirar
Não tão maiores que aqueles feitos pelas balas de uma arma carregada –
De mágoa
Em meio à uma guerra civil, guerra fria, insensível e desumana
Guerra moderna onde se fere com as palavras e a morte é lenta e indolor
Em meio à uma realidade ilusória e de um suposto avanço
Que só regride, atrasa, retrocede e outros sinônimos a mais
É cada um por si, e todos por nem um
É cada corpo andante que abriga o que a mente sustenta
O que a mente condena
O que o corpo ostenta e fere
Aquilo que falta no coração
E eu escrevo erroneamente
Traduzindo as estrelinhas de um mundo condenado
Um mundo que agride, controla e manipula
O que fez de nós, meros mortais
Seres tão animais,
Seres irracionais?
Diante de um cenário vergonhoso e impiedoso
Estamos todos dentro de um frasco
Usando os mesmos buracos para respirar
Exceto aqueles que ainda procuram seu exílio
Nas tragédias que encenamos a cada dia

Por que vivo?

“Por que vives?”

Amanheceu, fez-se de repente dia
Iniciou-se um ciclo de novas vidas
Novos pesares, novos amores
Mas as dores,
Elas continuam as mesmas

“Por que vives?”

As ideias mal desenvolvidas
Formam-se diante de mim
Vestígios de alguém que um dia fui
Um rosto do avesso
Uma alma mutilada
Ainda procurando a resposta para tal pergunta

Por que vivo?

Pretendo achá-la perdida em um canto qualquer
No fundo de alguma gaveta
Junto com todas as respostas de que preciso
E já respondo

Enquanto isso,
mudo a cada instante
enquanto observo o dia passar despercebido diante de mim
E aprendo
Ouço a manhã chegar
E o entardecer ceder a noite adentro

Por que vivo?

Perdoe-me, o que queres?
Não tenho respostas
Eu sou de lua
Transcrevo meu caos em palavras minguantes
Pois quando me dedico a escrever, assim o faço
E me empenho

Por isso vivo.