Frasco

Antes de mais nada peço perdão
Pelo tom de desespero presente nos versos seguintes
Pela poesia de gaveta que venho recitar
Pelo peso das palavras que tento igualar
Com o peso nas costas
As custas de histórias reais
Vividas, sofridas, sentidas
E pela recompensa contida nesse frasco
Coberto de terra
Esses pequenos buracos para respirar
Não tão maiores que aqueles feitos pelas balas de uma arma carregada –
De mágoa
Em meio à uma guerra civil, guerra fria, insensível e desumana
Guerra moderna onde se fere com as palavras e a morte é lenta e indolor
Em meio à uma realidade ilusória e de um suposto avanço
Que só regride, atrasa, retrocede e outros sinônimos a mais
É cada um por si, e todos por nem um
É cada corpo andante que abriga o que a mente sustenta
O que a mente condena
O que o corpo ostenta e fere
Aquilo que falta no coração
E eu escrevo erroneamente
Traduzindo as estrelinhas de um mundo condenado
Um mundo que agride, controla e manipula
O que fez de nós, meros mortais
Seres tão animais,
Seres irracionais?
Diante de um cenário vergonhoso e impiedoso
Estamos todos dentro de um frasco
Usando os mesmos buracos para respirar
Exceto aqueles que ainda procuram seu exílio
Nas tragédias que encenamos a cada dia

Por que vivo?

“Por que vives?”

Amanheceu, fez-se de repente dia
Iniciou-se um ciclo de novas vidas
Novos pesares, novos amores
Mas as dores,
Elas continuam as mesmas

“Por que vives?”

As ideias mal desenvolvidas
Formam-se diante de mim
Vestígios de alguém que um dia fui
Um rosto do avesso
Uma alma mutilada
Ainda procurando a resposta para tal pergunta

Por que vivo?

Pretendo achá-la perdida em um canto qualquer
No fundo de alguma gaveta
Junto com todas as respostas de que preciso
E já respondo

Enquanto isso,
mudo a cada instante
enquanto observo o dia passar despercebido diante de mim
E aprendo
Ouço a manhã chegar
E o entardecer ceder a noite adentro

Por que vivo?

Perdoe-me, o que queres?
Não tenho respostas
Eu sou de lua
Transcrevo meu caos em palavras minguantes
Pois quando me dedico a escrever, assim o faço
E me empenho

Por isso vivo.

Noite

O tic-tac do relógio indica o tempo perdido entre um cochilo aqui e outro lá. Os dias seguem se arrastando minuciosamente. Não vou a lugar nenhum. Metade do ano se passou, e ainda estou deitada. Perdida e afundada no colchão. Passei a viver de lembranças, sonhando com viagens que nunca farei e diálogos que nunca direi. Murmurando amores perdidos que só me foram necessários para aprender a ser só.
Observo a lua, ali sozinha na noite nua e iluminada. As vezes tenho a impressão de que ela me acompanha. Mas estou parada. Assisto ao julgamento no qual sou juiz e réu. Mas me encontro em juízo final, pois já é dia.
Vedo meus olhos e viajo ao desconhecido, erroneamente me encontro sempre no mesmo lugar: na cama.

Inverno

Observei a coruja no muro inacabado
E fui observada
Secretamente em silêncio eu gostava
De ser vigiada
E me pergunto se a coruja estava lá o tempo inteiro, e eu não vi
E como tudo e todos nós
Estamos suspensos por motivos que nos foram dados como outorga
Sentimentos que não ousamos sentir
Assim como subitamente a coruja desapareceu
Supostamente me esqueci
Já não lembrava da coruja como no momento em que a vi
Esquentei as pontas dos dedos na xícara de café
Suspeitei,
Não havia coruja
As coisas são o que são quando não queremos ver
E sutilmente somem, ou deixam de ser.

Colecionador de Conchas

Havia um colecionador de conchas. Um triste colecionador. Todos os dias lá estava ele na beira do mar. Passos tímidos que deixavam fortes pegadas ao caminhar. Apesar da dificuldade ao abaixar-se para catar as conchas, ele estava lá. Nos dias álgidos como as geleiras, nos dias tórridos como o fogo, estava lá. O rosto mostrava cansaço, as pernas, disposição.
O paradeiro das conchas era um mistério. Ninguém sabia para onde ele ia quando a noite tratava de aparecer. E no dia seguinte lá estava ele, antes mesmo do sol nascer.

Em sua última caminhada, o homem carregava um baú e seguia guiando-se pelo luar. A noite estava fria e a maré agitada. O baú pesava de sonhos, talvez. Sonhos em forma de conchas.
Enquanto seguia em direção a imensidão azul, cada vez mais fundo, a cada passo era engolido um pouco mais, em um abraço aconchegante de um oceano de sentimentos.
O baú não pesava mais.

Afogou-se.
O colecionador e as conchas.

Fragmentos

No rubor da minha face
No vazio das palavras
Asfixiantes
Eu te encontro

No avesso da minha alma
No segredo do abismo
Agora raso
Eu te inspiro

No fundo do oceano
À beira-mágoa
Desprotegido
Eu te assombro

Como se fosse a última vez
Eu respiro
Como se fosse a primeira
Eu te amo